26.8.10

Ser para além do que se é

Há coisas que nunca fui mas que gostava de ser. Não se sendo aquilo que não se é, só alcanço esta pretensão fingindo ou lutando contra uma personalidade que não sendo inflexível, tem na sua resistência um ponto estável.

6.5.10

Azul



Eu podia viver de azul. Encher os olhos de azul, sem sobras para outras cores. Azul hegemónico, tirano, dominador, apaixonante e belo. Azul claro, bebé, petróleo, indigo, com nuances, às riscas.
Azul, simplesmente azul.

13.4.10

Palavras escondidas

Hoje estou sem palavras.
Hoje não há palavras que queiram a minha companhia.
Não me importo. Penso. Penso em silêncio.
E no silêncio do meu pensar encontro as palavras escondidas.
E nas palavras escondidas reencontro outras.
E pode ser que todas voltem.
E pode ser que o meu pensamento não volte a emudecer.
E falando com pensamentos não preciso de palavras para pensar.
Hoje estou sem palavras.
Mas não preciso delas.
Os meus pensamentos já falam por si.

7.4.10

Questionamento



Qual é a cor que me descreve?
Qual é o sentimento que me torna mais doce?
Qual é a forma do meu objecto de amor?
Quantos números perfazem os meus sonhos?
Quanto sal sai dos meus olhos e penetra na minha pele?
Qual é o aroma da minha existência?
Quantas gotas de pensar formam o meu pensamento?
Quantos gramas pesam os meus medos?
Qual é o sabor das minhas defesas?
Qual é o adjectivo que se me cola à pele?
Quantos graus tem a minha sede de risos?
Qual é o nome da minha indiferença?
Quanto mede a minha loucura contida?
Quanto vale aquilo que sou?

5.4.10

I do not know...

this is my real problem.

Sim, são pedras

Posted by Picasa



São cinzentas, inertes, estáticas, inanimadas. Pedaços de erosão que conseguem harmonia na ausência de movimento. Sustentam, seguram, protegem, conseguem gerar brincadeiras, saltos, acrobacias. Escorregar, cair, levantar, fotografar.

Sim, são pedras.

30.3.10

A vida pode ser trágica. A vida pode ser cómica. Conheço quem se desfaça em risos sinceros enquanto relata o seu próprio infortúnio, conheço quem chore e se lamente com pequenos desapontamentos que ao dia seguinte estão esquecidos.

A vida trágico-cómica depende quer do posicionamento sobre os acontecimentos que nela habitam quer do afastamento temporal da situação. Por posicionamento refiro-me a atitude pessoal, por afastamento temporal refiro-me ao encostar na expressão “isso com o tempo passa”, tão gasta de ser usada que para mim devia simplesmente ser deitada fora e reciclada para algo como “o tempo ajudará naquilo que sozinho não conseguires”.

Geralmente tenho tendência para as tragédias, o que logo em mim é profundamente trágico que aconteça porque todo o meu racionalismo me diz que esse não é o caminho. Mas também estou longe da comicidade na vida, de achar graça a contrariedades, frustrações, desilusões e outros que tais. Preciso do tal tempo para conseguir rir da situação e gostaria de fazê-lo mais rápido por minha própria atitude.

Detesto ter de esperar que o tempo me embale para que os meus desgostos, angústias e outros males de espírito sejam amenizados. Adoraria ter a atitude positiva, resiliente, optimista e recheada de outros chavões do jargão psicológico, para me render rapidamente à comédia sem precisar de uma imensidão de tempo para me afastar da tragédia.

Claro que não defendo a “fuga para a frente", o fechar de olhos para ignorar o problema, pelo contrário, a tragédia existe e existe para ser vivida, experienciada, chorada, revoltada e resolvida mas não gostaria de estar à mercê de algo tão subjectivo e ilusório como o tempo para que o cómico desperte em mim.