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10.3.11

Aprender a aprender!

É uma verdade que custa assumir, a de que a iliteracia e o analfabetismo constituem uma realidade nacional. Apesar de todas as (novas) oportunidades impulsionadas pelos governos (defensáveis ou não, pouco importa para este texto) a verdade é que as estatísticas nos continuam a empurrar para um lugar de fim de fila no que às qualificações e ao abandono escolar diz respeito. E, apesar de ser confrontada diariamente com este contexto inquietante, quando vejo na televisão jovens que não sabem ler nem escrever, sequer, o seu nome, perpetuando uma herança familiar de alheamento atroz pelo mundo que os rodeia, isso é coisa para, ainda, me conseguir lançar uma considerável dose de perplexidade. Sei, no entanto, que há realidades que justificam o afastamento da escola, existindo quotidianos, tão repletos de dificuldades, que os números e as letras são empurrados para longe das suas prioridades. Mas sei também que para aprender é preciso querer, é preciso atentar, é preciso instalar a curiosidade. E o que mais me custa não é quem não teve oportunidades para aprender mas sim quem, não tendo aprendido, não vê nisso mal nenhum. «O pior cego é aquele que não quer ver», já diz o ditado popular que assenta na perfeição nesta atitude depreciativa perante a aprendizagem.

A aprendizagem ao longo da vida é o paradigma de formação de um estado europeu que se quer qualificado, competitivo e modernizado. Modelos políticos, sociológicos e psicológicos à parte, pois este blogue vive somente da minha perspectiva pessoal de mero senso comum, sou defensora acérrima de todas as aprendizagens que possam solidificar o desenvolvimento intelectual do indivíduo. Talvez seja por isso que nunca compreenda o argumento tipicamente utilizado, e a fazer manchete nos dias de hoje: «Para que é que estudei tanto se ganho o mesmo de quem estudou menos do que eu?». Acho legítimo que se defenda que, a um maior nível educacional, corresponda uma resposta social que actue como mecanismo de reforço da motivação. Já há muito que se conhecem as teorias do condiconamento pavloviano e dos efeitos da motivação no comportamento humano, mas existe todo um manancial de estímulos sociais que justificam as mais-valias do aprender para além do já gasto, e no fundo pouco lógico, argumento do vencimento ao final do mês.

Os vencimentos ganham-se e perdem-se; aumentam e diminuem; mudam com as conjunturas, com os mercados, com as balanças comerciais. Aprender é sempre ganhar; ganhar mundo interior; ganhar hipóteses de ir mais além, de subir as probabilidades para cada uma das jogadas da vida; é aumentar os graus de liberdade que ditam a actuação de cada um; é ver para além de olhar, é ouvir para além de escutar. Posso parecer acusar excesso de demagogia, ingenuidade, e até de romantismo, mas não acho, de todo, que esses juízos se me ajustem. Acredito que haja descrença na sociedade, cansaço pelas dificuldades de um país em desalento, desconfiança nas estruturas que nos sustentam. Mas não há maior estímulo do que aprender para melhor decidir, não há melhor resposta social do que estar informado para melhor agir. Aprender é sempre o melhor dos investimentos. Ainda que os números do desemprego não o demonstrem, ainda que os salários nacionais sejam vergonhosamente inferiores a outros países com o mesmo custo de vida, ainda que a precariedade laboral pareça ser um conceito partilhado e amplamente disseminado, ainda assim, para mim, nada justifica forçar o mundo interior à mesma pobreza imposta por uma sociedade desigual.

11.3.10

Neuralogy

Se eu sobreviver intacta, sã, equilibrada, com respostas coerentes, a conseguir fazer o 4, a continuar a gostar de chocolate com avelãs e de ouvir os U2, após este pico de trabalho (em que pico é um pleonasmo para um amontoado desmesurado de coisas para fazer), então os meus neurónios dão-se melhor do que eu pensava e eu começo a acreditar que no interior desta mente há festas e boa música.

7.3.10

Não sei se alguma vez na infância tive um amigo imaginário, não que me recorde, mas talvez o tivesse tido apesar de discreto e de poucas falas. Mas amigos mesmo eram estas turmas de bonecos que me deliciavam os olhos e que me despertaram para o hábito da leitura enquanto enchiam as prateleiras lá de casa e davam todo o sentido ao conceito de pilhas de livros na mesa de cabeceira. O êxito destes amigos da BD é universal, longe está de ser um exclusivo meu, mas ainda hoje, e com especial destaque para a turma da Mónica, os recordo como dos melhores pertences do meu imaginário infantil.

É engraçado como me deixava seduzir por argumentos simples mas que por serem tão afastados da minha realidade os tornavam da maior singularidade. Ninguém conseguia reunir um grupo de amigos em que um nunca, mas nunca tocou em água, outro tem somente 5 fios de cabelo, uma amiga aficcionada por comida, especialmente melancia e que nos dias de hoje facilmente seria diagnosticada com distúrbios alimentares, e outra que não se cansava de retaliar contra os mesmos improprérios que todos os dias lhe eram dirigidos, fazendo uso de um coelho azul encardido mas eficaz no seu trabalho. Para além disto falamos do estilo de vida descontraído, passado num Brasil quente, onde a alegria era transversal mesmo nas histórias mais "negras". Para mim era argumentos de sobra.

O bolinha e a luluzinha tinham menos graça, é certo, ainda assim, tive uma colecção razoável destes dois personagens de personalidades opostas e acho que sinceramente aguçaram o meu lado feminista com o execrável clube do Bolinha cuja assinatura escrita a letras negras era "Menina não entra". Esta que era uma irritaçãozinha em tenra idade converteu-se em algo mais sério nos dias de hoje chamado de defesa pelas igualdades sociais, mas isso não é conversa para este post. Aqui é mesmo para perpetuar amigos de papel, que sem nunca os ter tocado me enriqueceram o meu repertório de amizades que não se esquecem.

2.3.10

Working day

Há coisas que me tiram do sério. Ultimamente há demasiadas coisas que o fazem é verdade, mas existem aquelas ancestrais, aquelas que mexem directamente com a minha maneira de ser e me criam um nervoso miudinho, com um rubor indisfarçável, com uma eloquência atípica, e no seu superlativo com uma vontade de esganar o seu causador.

Uma dessas coisas é que o meu trabalho dependa de terceiros não cumpridores, abusadores, destabilizadores, criadores de obstáculos que criam atrasos, stresses e erros. Trabalho em equipa, sim, sempre, mas numa linha de acção eficaz e eficiente.

Sou organizada por natureza, não sou daquelas excessivamente concentradas no trabalho pois sei conciliá-lo com algumas pausas que considero saudáveis, mas planeio o que faço e procuro não dar demasiada importância a distracções. No entanto, gosto de pensar que há aquela distracção salutar, como um email a combinar um almoço com uma amiga, uma ida ao blog do amigo, uma visita ao facebook, que poderão até ser bons anfitriões de um ambiente de trabalho benéfico e equilibrado, desde que usados com o devido bom senso, pois claro, não perdendo de vista os deveres do trabalho laboral. Por isso não sendo de todo aficcionada no trabalho, sou-o nos prazos, sou-o na sua qualidade e rigor e aborrece-me, irrita-me, desorienta-me que me desviem deste caminho, que podendo até não ser o mais virtuoso, é o meu, e é o que me faz ter os meus resultados e cumprir os meus objectivos.

Mas parece que há dias em que todos aqueles que não pensam como eu se juntam e teimam em conspirar contra o meu planeamento, atrasando o trabalho, e fazendo com que uma cadeia de entidades e de procedimentos fique prejudicada. E isto é coisa para me irritar muito, e fazer com que a minha normal assertividade seja esmurraçada pela minha agressividade, geralmente tão mais acanhada. E eu não gosto desta inversão de papéis e por isso tinha de vir aqui escrever em tom de desabafo agarradinho a uma esperança de que amanhã seja melhor.